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e pela marca de trem de pouso nas minhas costas, veja só como andei me divertindo (uma madrugada em Calicute)

“Aqui de outras cidades, sem debate,
Calecu tem a ilustre dignidade
De cabeça de Império rica e bela:
Samorim se intitula o senhor dela.”

Mas hoje é uma bosta.
*****
Estive em Calicute, a cidade onde Pero Vaz de Caminha mórreu em combate quando Pedro Álvares Cabral tentava estabelecer uma feitoria no local. Infelizmente esse vôo é um bate-e-volta – e daquele dos capetas que decola as três e quarenta da manhã. Porque muito me interessaria fazer o Vasco da Gama e me jogar nesse cantinho do Kerala. Enfim, o que posso dizer (vendo pela janelinha do avião) é que a riqueza natural é phoda com PH de pharmácia e que preciso MUITO visitar esse estado da Índia.
Que a cidade seja feia, encardida e bagunçada… Não posso negar – tal qual minha amada Colombo, capital cingalesa, que é um desastre urbano mas, porra, muito mato e praia, cousa que esta turca adoura. Mas o estado do Kerala bate um bolão. Recomendo uma visitinha ao site oficial do turismo para ver que não estou exagerando.
(porque não tenho a menor vontade de conhecer Taj Mahal, tenho horror a pontos turísticos que conhecemos para bater cartão)

Nessa onda do Industão em rebatizar suas cidades com nomes originais, Calicute virou Kozhikode. E acho isso mágoa de cabloclo.
O vôo foi infernal. Uma criança, ou um gremlin molhado e alimentado após a meia noite, me segurou pelo colete e exigiu que eu ficasse a sua disposição preenchendo seu copo de suco de manga. Eu me virava e aquele pequeno diabo me puxava. Os pais não faziam nada, na verdade, acho que curtiram ver a escrava branca servindo seu pequeno demônio. Ok, fofo. Mas outros cento e muitos passageiros m’esperavam, PORRA.
Quero mais, me dá mais, quero mais água, mais whisky, quero mais Bombay Mix, quero mais suco de manga, me dá, me dá mais um, me dá mais dois, me dá mais três, comissária eu quero!
Meu pequeno carrinho de bar esvaziou-se em cinco fileiras e tive vontade de furar meus pulsos com o pegador de gelo. Não vou nem falar do drama do frango. Deus teve piedade da minha alma e fez com que o catering enchesse aquele avião com caçarolas recheadas com a carne mais barata do mercado. Houve quem ficasse sem e uma pequena guerra civil quase explodiu em algumas fileiras, mas somos treinadas para controlar esses pequenos, hm, desconfortos.
O mais incrível é que consegui me divertir horrores. O horário terrível fodendo meu ritmo circadiano, os doppio macchiato e as latinhas de Redbull com açúcar me deixaram hyper -fenômeno que ocorre quando estou MUITO cansada. Na verdade acho que todos os tripulantes assim estavam e, por isso, a empatia foi forte. Sem falar que a chefe chinesa elogiou muito minha pronúncia de ofensas em mandarim (laoshi, nem tô mais assim tão bu hao) e o chefão era o marido da minhamiiiiiga.
Isso é a prova de que não dá para dizer que vôo pra tal lugar é bom ou ruim. Meu vôo favorito é Hong Kong, mas o último me deu vontade de chorar. E bate-e-volta para a Índia, quem curte? Mas com uma tripulação dessas, bem, topo até um layover de 56 horas em Mogadíscio.
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